Galinha de mais de um metro de altura é vendida por R$ 74 mil

0
98
Com dúzia de ovos a R$ 180, criadores dizem que galinha gigante dá mais lucro que vaca

Ela se chama Betina da Diamante e tem um metro e cinco centímetros de comprimento. Betina é uma Galinha da Raça Índio Gigante e foi arrematada por R$ 74 mil. “Certamente me taxarão de louco ao saber que comprei uma galinha por quase R$ 74 mil, mas quem é do mercado sabe o quanto ela é preciosa. É difícil conseguir aves grandes e o acesso a essa genética exige alto investimento”, relata o criador Ademir Melauro, dono do criatório Francano. Ele já tem até um pretendente para Betina, é o galo Mezenga de 118 centímetros.

O leilão de galinha especial, realizado recentemente no interior paulista, revela os números de um segmento promissor, que gera cada vez mais lucros. “Com este resultado, Betina é certamente a franga mais valorizada da raça atualmente”, garante Heraldo Poliselli, um dos promotores do leilão.

Betina foi vendida por R$ 74 mil em leilão realizado no interior de São Paulo (foto: divulgação)

Na Bahia ainda não há galinhas tão valiosas, mas o segmento vem crescendo 20% ao ano. Nos últimos cinco anos o número de criadores subiu de 15 para cerca de 150, espalhados por várias regiões do estado. “Tem cada vez mais gente interessada neste tipo de criação. Geralmente começa como hobby, muita gente cria até no quintal. Depois vira opção de renda extra, ou até se transforma no principal faturamento da fazenda” diz Irênio Rocha Júnior, presidente da Associação dos Criadores de Índio Gigante da Bahia (ACIG).

A associação foi criada no ano passado como reflexo da evolução do segmento. Em novembro está marcado um encontro de criadores na cidade de Seabra. Na Bahia, as galinhas da raça são vendidas por preços que variam de R$ 300 a R$ 5 mil. São valores, no mínimo, dez vezes maiores do que o das galinhas caipiras comuns, que custam entre R$ 30 e R$ 50 reais.

Os números se tornam ainda maiores entre os galos da raça. O Galo Índio Gigante é usado como reprodutor e alcança alturas ainda mais elevadas, entre 115 e 126 centímetros, quase um metro e meio.

Na Bahia há galos índios gigantes avaliados em até R$15 mil. Ano passado, também em São Paulo, um outro galo índio gigante chegou a ser leiloado por R$ 154 mil, o mais alto valor já alcançado em um leilão deste tipo. Hokaido, como é chamado, foi valorizado principalmente pela precocidade. Ele alcançou 124 centímetros e oito quilos antes do tempo regular.

Padrões estéticos
As coxas longuíssimas e o dorso longo poderiam até provocar um desequilíbrio no andar e deixar a ave meio desengonçada. Mas o porte altivo e o vigor acabam harmonizando o conjunto. Fazem o animal empreender um estilo próprio de andar. E são detalhes como este que contam na valorização do galo. Fatores como tamanho, conformação racial e estética fazem a diferença.

“Além do tamanho, tem que ter boa plumagem, asas encaixadas, dorso largo, rabo com inclinação de médio para baixo. A espessura da canela tem que ser mais grossa, porque isso define um animal mais firme. E quanto maior a barbela de boi, aquela pele entre o bico e o pescoço, mais valorizado o galo fica”, explica Irênio.

Mas não basta só isso. O bico tem que ser mais curto. A cabeça mais arredondada e grande. Já aqueles que tem a crista ‘bola’, redonda, é mais valorizada que a crista ‘ervilha’, aquela mais achatadinha. Para as pernas não entortarem, as aves recebem suplementação alimentar com cálcio misturado à ração comum. É desta forma que as pernas ficam fortes e com capacidade para suportar o peso.

Com porte tão altivo, tem gente que cria apenas como ornamento, com o simples proposito de ter um galo gigante passeando pela propriedade, como acontece com os pavões e cisnes. Outra vantagem apontada pelos criadores é a fácil adaptação a qualquer região e temperatura. Este fator tem contribuído para a expansão das aves na Bahia.

Paixão
Em Araças, na região Nordeste da Bahia, a 116 km de Salvador, a Fazenda Riacho Claro pode ser considerada o principal lar dos galos índios gigantes do estado. Eles já formam um plantel com 500 animais.

O dono da fazenda, Élio Borges, foi um dos primeiros na Bahia a identificar o potencial do galo índio gigante. Ele cria aves há 12 anos. “Eu comecei a criar e me apaixonei pela facilidade. Estas aves se adaptam a qualquer região e temperatura. Eu crio com dois objetivos, por que gosto, acho bonito ter uma ave grande, e pelo retorno financeiro”, explica.

Até bem pouco tempo as aves ganhavam o nome de cangaceiros, reis e rainhas. Foi assim que os Lampiões, Coriscos e Imperadores se espalharam pela granja. Mas do ano passado para cá, com o crescimento constante do plantel, as aves passaram a ser batizadas com nomes mais modernos.

O criador Élio Borges e seu galo Stark (foto: divulgação)

Atualmente o maior índio gigante da coleção é o Stark, de 121 centímetros. Avaliado em R$ 15 mil, ele não está a venda. Mas o dono garante que não é apego ao animal, é uma questão estratégica para os negócios.

“Já achei propostas, mas não quero vender. Até por que seria um péssimo negócio. Eu vendo cada pinto deste galo por R$ 100. Cada 10 pintos que nascem rendem R$ 1 mil. Por isso este galo índio vai servir também para melhoramento genético. Vou cruzar ele como uma galinha também grande e ter filhotes maiores”, explica o criador, que trocou definitivamente o antigo rebanho de bovinos pelos índios gigantes. Segundo ele, as aves são mais rentáveis que as vacas.

A maior galinha do plantel tem um metro e três centímetros. Ela está avaliada em R$ 4 mil, mas também não está a venda. “A conta é simples. Uma galinha me dá retorno financeiro anual maior do que uma vaca. Não é folclore. Se uma galinha tirar 10 pintos por mês, eu vendo cada pinto por R$ 60 e então tenho R$ 600 por mês. Multiplicando por 12 meses, cada galinha rende R$ 7.200. Uma vaca, que gera um bezerro por ano, nunca rende isso neste mesmo tempo”, conclui Élio Borges.

Galos da raça Índio Gigante têm mais de um metro de altura  (Foto: Divulgação)

Carne saborosa, ovos valiosos
Em geral, as aves são vendidas para transferência genética e melhoria de plantel de aves comuns. Ao cruzar um galo índio com uma galinha caipira simples, os pintinhos nascem maiores.

Muita gente não compra o animal vivo, adquire o ovo e coloca para chocar. Por isso, os ovos são vendidos a preços bem maiores do que os comuns. Uma dúzia está sendo comercializada por R$ 180. Em alguns lugares, há até quem já venda por R$ 200. Apesar da dimensão da ave, o tamanho dos ovos é apenas ligeiramente maior do que o da galinha comum.

Com aves e ovos tão valiosos, fica difícil encontrar alguém que cria o índio gigante para abate. Afinal, qualquer ensopadinho de galinha sairia por no mínimo R$ 300 reais.

Mas há quem reserve as aves menos valorizadas do plantel para preparar pratos em ocasiões especiais. A carne é densa, mas macia e saborosa. Geralmente tem sido indicada para ensopados, cozidos e assados. Um dos pedaços mais concorridos é a coxa, que muitas vezes ultrapassa o dobro do tamanho de uma coxa de galinha comum.

A maioria dos animais são comercializados diretamente entre os criadores, em lojas especializadas de venda de animais, em exposições ou leilões. No Brasil, o maior número de aves deste tipo está em São Paulo e Minas Gerais.

Genética
O galo índio gigante é considerado uma raça genuinamente brasileira. Ele é o resultado do cruzamento entre a raça caipira com a Shamo e Malaio, consideradas raças combatentes, de maior porte. Os primeiros cruzamentos teriam sido feitos há mais de 40 anos.  Já o nome “índio gigante” teria surgido como uma forma de homenagem à força e à garra do povo indígena.

Os animais machos crescem até os 14 meses. As fêmeas geralmente ganham altura até a segunda postura, em torno de um ano de idade. O peso médio de um animal adulto varia entre 7 e 9 quilos. A medição do animal é feita da ponta da unha até a ponta do bico, com o animal esticado. Os criadores selecionam os melhores para fazer os cruzamentos e obter animais cada vez maiores, com carcaças mais pesadas.

Para alcançar esta meta, nos últimos anos, o segmento tem se modernizado. Da mesma forma que os pecuaristas criadores de bois, os avicultores usam técnicas de ponta para otimizar a reprodução e obter animais maiores e mais produtivos.

De olho neste nicho de mercado, o analista de sistemas João Fernandes Athayde virou avicultor e vem se especializando em inseminação artificial.   “Com a inseminação nós coletamos o sêmen do galo e introduzimos na galinha. Assim obtemos um aproveitamento melhor dos reprodutores, tanto na fertilidade  quanto na qualidade. Enquanto na monta natural um galo cruza com 4 a 6 galinhas, na inseminação artificial o sêmen pode ser usado em entre 15 a 40 galinhas. Assim também as aves ganham valor agregado”, explica.

Ele começou a criar as aves há 3 anos na cidade de Seabra, na Chapada Diamantina. Atualmente tem um dos maiores galos da Bahia, o Príncipe, como vem sendo chamado. Príncipe atingiu 1 metro e 23 centímetros, e é filho de um outro recordista, o galo índio gigante Rei, que tem 1 metro e 19 centímetros.

Quanto à fama de bravo, o avicultor garante que é lenda: “O tamanho é só para assustar. Ele convive bem com as outras aves”, garante.

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here