Os protestos entraram na terceira semana nesta segunda-feira (4) no Chile, com dezenas de milhares de manifestantes, a maioria estudantes, nas ruas para exigir mudanças a um poder que parece impotente para debelar a crise.

Convocados pelas redes sociais para uma “supersegunda” de manifestações, os chilenos marcharam e se concentraram nas ruas de Santiago e outras cidades como Valparaiso e Viña del Mar.

Na capital, logo cedo manifestantes se concentraram em frente aos tribunais, os taxistas protestaram contra a cobrança de pedágio dentro da cidade e em seguida o protesto ganhou corpo e reuniu uma multidão no entorno da Praça Itália.

Durante a tarde, manifestantes enfrentaram a polícia na Praça Itália e em outros pontos do centro de Santiago, e ao menos uma policial ficou ferida.

Os confrontos começaram quando os manifestantes tentaram chegar ao Palácio Presidencial de La Moneda pela Avenida Alameda, forçando as barreiras da polícia ao longo do trajeto.

Na Praça Itália, a polícia lançou bombas de gás lacrimogêneo e utilizou jatos d’água para dispersar os manifestantes. A policial ficou ferida neste confronto.

Em Viña del Mar, 120 km a oeste de Santiago, manifestantes também enfrentaram a polícia e saquearam lojas de um shopping.

Os protestos questionam um Estado ausente em educação, saúde e Previdência com base em um modelo econômico de livre-mercado, onde uma minoria controla a riqueza do país. Dessa maneira, multiplicaram-se as vozes da esquerda e da direita que pedem uma mudança na Constituição, herdada da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990).

O presidente Sebatian Piñera cancelou a organização da Apec (Cooperação Econômica Ásia-Pacífico) e a COP-25, cúpula do clima da ONU, previstas para este mês no Chile, devido à crise e diz que prefere realizar “um diálogo amplo”.

Segundo uma pesquisa realizada pelo instituto Cadem e divulgada no domingo, 87% da população apoia a mudança da atual Constituição.

Piñera paga pelos erros na gestão da crise desde o primeiro dia de protestos com uma queda acentuada da sua popularidade, hoje em 13%, segundo o Cadem.

Em um final de semana frenético, com saques a supermercados, incêndios de infraestruturas e excessos, o presidente decretou estado de emergência, enviou militares às ruas e impôs um toque de recolher, medidas que não eram tomadas desde a época da ditadura de Pinochet.

– Popularidade baixa, economia prejudicada –

O presidente tem o menor índice de aprovação de um chefe de Estado desde o retorno da democracia no Chile.

Nesta segunda-feira, foi divulgado que a economia chilena cresceu 3% em setembro em comparação com o mesmo mês do ano anterior, completando seu melhor trimestre do ano, mas, com os protestos, o governo prevê uma queda até o final do ano, com uma retração de 0,5% em outubro.

“O que nós esperamos para o quarto trimestre é uma situação completamente diferente, produto dos eventos que todos conhecemos”, disse o ministro da Fazenda, Ignacio Briones.

A Câmara de Comércio de Santiago (CCS) indicou que 46% das empresas do setor sofreu danos diretos e enfrentaram custos por menores vendas.

– Abusos sob a lupa –

Ativistas, incluindo o Prêmio Nobel da Paz Rigoberta Menchú, pediram nesta segunda a Piñera que interrompa as “graves e sistemáticas” violações aos direitos humanos.

Menchú estimulou os chilenos a continuarem trabalhando para conseguir um país mais justo e se mostrou a favor de uma Assembleia Constituinte, destinada a elaborar uma nova Constituição.

Os protestos deixaram 20 mortos, cinco deles nas mãos de agentes do Estado e cerca de 150 manifestantes com ferimentos oculares durante confrontos com a polícia nas manifestações de rua.

Nesta segunda-feira, o ministro da Justiça, Hernán Larraín, revelou que se comprometeu com a missão do Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU a informar, com “total transparência”, sobre a atuação da polícia e dos militares.

“Procuramos garantir a maior informação possível e a total transparência sobre as ações das autoridades do governo, já que o nosso compromisso é com o respeito aos direitos e às liberdades das pessoas…”, declarou Larraín.

“Há denúncias de condutas graves” feitas por instituições de direitos humanos pela atuação de policiais e militares, admitiu o ministro, acrescentando que os cerca de 600 civis detidos serão processados.

Essa crise começou com um protesto de estudantes contra o aumento dos preços das passagens de metrô em Santiago. O movimento desencadeou um profundo descontentamento da classe trabalhadora e da classe média, que têm tido suas expectativas frustradas em um sistema que promove o endividamento.

Até agora se trata de um movimento heterogêneo, sem bandeiras políticas e sem liderança identificável.

– Rotina abalada –

As atividades foram retomadas em Santiago e nas principais cidades do país, embora os chilenos estejam atentos às manifestações maciças convocadas nas redes.

O metrô de Santiago, que transportava cerca de 2,6 milhões de passageiros em dias úteis, estendeu seus horários até as 20h00, e se recupera pouco depois de sofrer graves danos em 118 de suas 136 estações, entre elas 25 que foram incendiadas, sobretudo em zonas muito populosas e onde vive a classe trabalhadora.

Os danos ao metrô, um dos mais modernos na região, são estimados acima de 350 milhões de dólares. A depredação de pequenas e médias empresas e de estabelecimentos comerciais, além da infraestrutura públicas, superam os 900 milhões de dólares, segundo dados oficiais.

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