Alexandre Soares, da ONU News em Nova Iorque.*

A Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas no Sudão do Sul identificou mais de 40 militares de alta patente acusados de crimes de guerra e crimes contra a humanidade.

As acusações fazem parte de um relatório lançado esta sexta-feira. O documento deve ser usado para responsabilizar os autores em tribunais e para outros mecanismos previstos no Acordo de Paz assinado em 2015.

Julgamento

A presidente da comissão, Yasmin Sooka, explicou que “o tribunal pode ser estabelecido de imediato e os promotores podem começar a fazer acusações.” Segundo o Acordo de Paz, aqueles que forem condenados não podem manter cargos públicos.

O comissário Andrew Clapham disse que “responsabilizar as pessoas no poder pelo sofrimento causado ao seu próprio povo é fundamental para derrubar esta catástrofe humanitária”

Clapham acredita que “há um padrão claro de perseguição étnica, na maior parte das vezes por forças do governo, que devem ser julgadas por crimes contra a humanidade.”

Horrores

O documento inclui dezenas de relatos de violência. Pessoas a quem foram retirados os olhos, castradas, degoladas. Crianças que foram obrigadas a combater e matar, depois de forçadas a presenciar o assassinato de familiares.

Segundo a comissão, as crianças representam um quarto de todas as vítimas de violência sexual, num conflito onde “as violações atingiram níveis grotescos.”

Uma mulher disse que o filho, de 12 anos, foi obrigado a estuprar a própria avó para sobreviver. A mesma mulher viu o marido ser castrado.

Os idosos também foram perseguidos. Sem poder fugir, foram deixados nas suas aldeias, e espancados até à morte ou queimados vivos. Os investigadores da comissão entrevistaram uma mulher de 85 que foi estuprada por um grupo de homens, depois de ver o filho e o marido serem assassinados.

Destruição

A ONU diz que o Sudão do Sul tem a crise de refugiados com crescimento mais rápido. Desde 2013, cerca de 4 milhões de sul-sudaneses fugiram de suas casas.

Os autores do relatório afirmam que “a escala da fome e destruição infligida no país não tem descrição.” Segundo o documento, a demolição de infraestruturas aconteceu em um “nível industrial”, com mais de 18 mil casas e edifícios destruídos em apenas alguns meses de 2017.

O relatório diz que os sul-sudaneses não concordam com este quadro de violência. Os autores escrevem que “muitos cidadãos comuns mostraram uma coragem e decência extraordinárias, cuidando dos filhos de outras pessoas desaparecidas escolhendo não se vingar quando puderam, e cultivando a sua própria comida nos campos de refugiados.”

Justiça

O relatório apenas inclui uma parte de toda a informação recolhida, que inclui 58 mil documentos e declarações de 230 testemunhas.

A Comissão vai participar num diálogo com autoridades do país, no Conselho de Direitos Humanos, em Genebra, em 13 de março.

Participação: Monica Grayley.

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